NÃO SE ENGANE, O QUE NOS DEFINE NÃO SÃO AS ESCOLHAS, MAS AS RENÚNCIAS

 

Todos os dias tomamos decisões, desde a quantidade de açúcar em nosso café até ter ou não filhos e cada uma delas rege as relações entre nós e os outros, mas não se engane, o que nos define não são nossas escolhas, mas sim nossas renúncias.

 

Por José Mário Orlandi

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Publicado em 28 de abril 2020 

Durante a pandemia do Covid-19 uma autoridade da política brasileira, interpelada sobre manter o isolamento social e entregar-se à uma incalculável recessão econômica ou voltar às rotinas sociais e dobrar-se à quebra do sistema de saúde e eventual morte de milhares, saiu-se com uma expressão idiomática muito conhecida: "é, certamente, uma escolha de Sofia" disse ele, para invocar a imposição de se tomar uma decisão difícil sob pressão e com duas alternativas igualmente insuportáveis.

 

A Escolha de Sofia (Sophie's Choice, em inglês) é um romance filosófico de William Styron, publicado em 1979, que relata a tragédia vivida por Sophie Zawistowska ocorrida nos Campos de Concentração do Nazismo, em Auschwitz, numa época em que ocorreram os mais desumanos e cruéis crimes da História da Humanidade.

 

Sofia, de origem polonesa, declarava-se católica e teria sido capturada e levada ao Campo de Concentração com seus dois filhos, Jan e Eva, por estar ocultando e transportando, de forma clandestina, alguns quilos de carne que pretendia levar para sua mãe enferma.

 

Extenuada pela longa e terrível jornada até Auschwitz, Sofia abafava o choro de fome da pequena Eva e de Jan, na época com 10 anos de idade, quando um dos carrascos nazistas a colocou frente a uma escolha trágica: ela deveria escolher qual dos dois seria poupado e qual seria condenado a ser morto na câmara de gás. Caso se negasse a escolher, os dois seriam mortos. Frente à situação desesperadora, optou por salvar o menino Jan por considerar que ele teria maiores condições de sobreviver aos horrores que ainda viriam. Em desespero, viu o olhar de sua ao ser brutalmente levada para o trágico fim. Lembrança que a atormentaria por todos os dias de sua vida.

 

Essa trágica narrativa ajuda-nos a refletir sobre uma das mais desafiadoras faculdades de nossa existência, o atributo de escolher, de decidir, de fazer ou não, de “ser” ou “não ser”. Todos os dias tomamos decisões, desde a quantidade de açúcar em nosso café até ter ou não filhos e cada uma delas rege as relações entre nós e os outros. Um único indivíduo, através de suas escolhas é capaz de causar efeitos positivos e/ou negativos, em toda a sociedade. Ao mesmo tempo, esse mesmo indivíduo é influenciado pelo todo. Nossa estrada é feita de encruzilhadas e escolher nem sempre é fácil, no entanto, estaremos sempre escolhendo.

 

Mesmo na rotina de nosso dia a dia cada escolha é, por si só, um desafio pois no final somos o resultado de nossas decisões, mas não se engane, o que nos define não são as escolhas, mas sim as renúncias. Aquilo de que abrimos mão em troca de algo que nos parece mais valioso, mais importante ou, no caso de Sofia, o que nos parece ter mais “futuro”.

No fim, Pablo Neruda tem toda razão: “Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.

 

De minha parte, nunca me considerei livre para tomar minhas decisões, mas constantemente me encontro refém das consequências. Talvez porque ache o termo livre arbítrio um tanto paradoxal. Ao mesmo tempo que denota a capacidade de escolha autónoma, o conceito tem influências morais, psicológicas, filosóficas, científicas e tecnológicas de fonte externa.

 

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Em tempo: O político que se remeteu a frase "é uma escolha de Sofia", deveria se colocar no lugar dos médicos que, nesse "inferno" devem decidir quem irá para os respiradores artificiais e quem será entregue a sua própria sorte. O médico, obrigado a tomar, hoje, sua escolha não é o responsável. Responsaveis, são aqueles que, quando deviam, não tomaram as decisões que podiam para que hoje nosso sistema de saúde não fosse o caos que realmente é. 
 

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Ainda, em tempo: O romance ‘A Escolha de Sofia’, também traduzido no Brasil, inspirou o filme homônimo, de 1982, sob a direção de Alan J. Pakula, tendo Meryl Streep no papel de Sofia. Tanto o livro quanto o filme são obras premiadas e de muito sucesso. Inesquecíveis e sempre atuais para quem mergulhou nessa tragédia humana. Fica o convite para ler o romance e ver o filme!