O MAIOR ORGULHO DE UM PAI É VER NOS FILHOS A EXTENSÃO DE SUAS CONQUISTAS.

 

 

 

 

 

Por José Mário Orlandi 

Kirk, Michael e Cameron Douglas

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ao lado: Kirk, Michael e Cameron Douglas

 

 

Publicado em 20 de fevereiro 2020 

Filho de um trapeiro judeu que fugiu da Rússia, Issur Danielovitch Demsky morreu em Beverly Hills (5 de fevereiro de 2020) aos 103 anos. Uma das últimas estrelas vivas da Era de Ouro do Cinema Americano, você talvez o conheça por seu nome artístico: Kirk Douglas. Ator, cineasta e autor norte-americano, considerado um dos melhores e maiores da história do cinema, era pai dos atores Michael Douglas e Eric Douglas e do produtor cinematográfico Joel Douglas.

Ao chegar em Nova York, mudou seu nome e conseguiu entrar na escola de teatro. Em 1942, no meio da Segunda Guerra Mundial se juntou ao exército e participou da campanha do Pacífico em um antissubmarino. Desmobilizado, encaminhou pequenos papéis antes de abraçar o sucesso em 1949 com “O Invencível”, onde encarnou um boxeador. A partir de então, a carreira do ator decolou com filmes de aventura (“Vinte mil léguas submarinas”, 1954), (“Spartacus”, 1960), outros de guerras (“Caminhos da Glória”, 1958)” Paris está em chamas? “, 1966), entre outros gêneros.

“Continuarei sendo um homem revoltado a vida toda”, costumava dizer. “A raiva foi o motor da minha vida, uma imensa raiva contra a injustiça”.

Achei importante a introdução para contar que, numa determinada ocasião, um repórter perguntou a Kirk se o fato de seu filho Michael ter ganho um Oscar e ele não, o incomodava. Kirk recebeu três indicações ao Oscar, por seus trabalhos em Champion (1949), The Bad and the Beautiful (1952) e Lust for Life (1956), e Michael ganhou o Oscar de melhor ator em 1987, pelo filme Wall Street.

A resposta de Kirk: “Meus filhos nunca gozaram de um privilégio que eu tive: nascer pobre“.

O maior orgulho de um pai é ver nos filhos a extensão de suas conquistas. Não falo de conquistas materiais, falo da vida, que é muito mais que dinheiro e fama.

Bertrand Russell (1872-1970), o mais influente filósofo britânico do século XX, foi muito feliz ao sintetizar o que, talvez, seja um complemento interessante à frase de Douglas: “Os nossos pais amam-nos porque somos seus filhos, é um fato inalterável. Nos momentos de sucesso, isso pode parecer irrelevante, mas nas ocasiões de fracasso, oferecem um consolo e uma segurança que não se encontram em qualquer outro lugar”.

A academia estava certa em oferecer o Oscar a Michael, mas Michael tem obrigação de dividi-lo com Kirk. Se a vida é feita de fases, e cada uma delas nos leva à seguinte, assim como em um revezamento nas pistas de atletismo, o bastão foi entregue de pai para filho, e a vida seguiu.

Sabendo ou não, Kirk e Diana, mãe de Michael, foram decisivos. Presentes (ou não), preocupados (ou não), afetuosos (ou não), transferiram aos filhos experiências e valores decisivos para a índole de Michael trabalhar. Caráter, inclinação, temperamento são traços e características inerentes a Michael desde o seu nascimento, mas foram influenciados, de uma forma ou de outra, pelo ambiente.

Me pergunto o quanto da pobreza, da raiva e revolta de Kirk formou o caráter de Michael. Me pergunto também como os filhos de Michael enxergam o ambiente em que vivem. Filhos de um famoso e milionário ator, aos seis anos de idade, segundo um estudo americano, já assistiram a cerca de 5000 horas de TV e video. Já viram cenas que aterrorizam, mortes, sexo, lutas, guerras, jogo de futebol, e todo tipo de porcaria, es crianças observam e se guiam pelos exemplos. Afinal, que adianta explicar a importância de comer salada se você só come fritura.

A ordem e a repetição podem variar, mas um proverbio atribuído ao povo português e que diz: “Pai rico, filho nobre, neto pobre” parece conter as variáveis das quais se fazem o tecido social do ocidente. Muitas vezes um pai pobre está condenado a ter um filho e um neto também pobres. Kirk pobre, viu seu filho nobre e seus netos ricos

Warren Edward Buffett, constantemente citado na lista da Forbes das pessoas com maior capital do mundo tem uma frase emblemática: “Quero dar a meus filhos bastante dinheiro para que possam fazer o que quiserem, mas não dinheiro o bastante para que não façam nada”

Enfim, poderíamos ficar horas discutindo sobre a pré-adolescência e a socialização, a adolescência e a autonomia, a vida adulta e os filhos de nossos filhos, mas nenhum minuto dessa discussão chegaria minimamente perto da vida real. Como disse Augusto Cury, “Pais e filhos vivem ilhados, raramente choram juntos e comentam sobre seus sonhos, mágoas, alegrias, frustações”.

É verdade, talvez por isso só paremos para pensar e escrever sobre o assunto quando algum repórter nos questiona, ou quando a resposta do entrevistado lhe parece familiar.