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No futuro, aposta será na pessoa, não no diploma

O físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser é o vencedor do Prêmio Templeton 2019. Gleiser tem 60 anos e vive atualmente nos Estados Unidos, onde ensina física e astronomia no Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire.

Ele já teve mais de 100 artigos revisados e publicados até o momento e pesquisas sobre o comportamento de campos quânticos e partículas elementares e a formação inicial do universo, a dinâmica das transições de fase, a astrobiologia e as novas medidas fundamentais de entropia e complexidade baseadas em teoria da informação. Agnóstico, seu trabalho se destaca por demonstrar que ciência e religião não são inimigas.

Marcelo Gleiser afirma que seu dia a dia não mudou substancialmente desde que se tornou o primeiro brasileiro a ganhar, em março deste ano, o Templeton, o “Nobel da Espiritualidade”.

O que mudou, diz, é que suas palestras, artigos e livros, incluindo alguns best-sellers, ganharam um poder de influência para grupos mais amplos da sociedade. E é nessa porta nova que se abriu, como define, que ele reflete mais sobre questões que ultrapassam seu campo de estudo mais famoso, o do diálogo entre a ciência e a religião.

Em visita ao Brasil no início de dezembro, Gleiser falou, por exemplo, sobre o impacto da automação e inteligência artificial na força de trabalho para uma plateia de CEOs e diretores — presentes ao 2º Connecting Leaders, evento do IAB Brasil (Interactive Advertising Bureau).

Defendeu que não se trata de “ficção científica” ou “previsão catastrófica” imaginar que grande parte dos empregos atuais não existirá nas próximas décadas. “Nos EUA, é uma realidade. Se você olhar para as pessoas que estão empregadas no Google e no Facebook, elas não tinham esse mesmo emprego há 20 anos. A inteligência artificial só irá acelerar esse processo”, disse em entrevista ao Valor Econômico após o evento.

No Brasil, defende o cientista, essa discussão não é muito concreta porque há uma descompasso no setor educacional, em relação ao que as universidades fazem, hoje, para formar as pessoas que ocuparão os novos tipos de emprego daqui a “cinco ou dez anos”, e as necessidades do mercado.    “Aqui há uma rigidez na formação e a percepção de que se você faz economia, você só pode ser economista. Nos EUA, a universidade oferece uma formação intelectual sólida, você se forma e, depois, recebe um treinamento de dois a três meses para aprender qual trabalho a empresa quer de você”.

Gleiser cita o exemplo de seu filho de 30 anos, que estudou linguística e depois foi trabalhar no setor de marketing do Google. “Esse tipo de versatilidade e de condição de apostar na pessoa, e não no diploma, vai ficar cada vez mais importante”.       Em termos de requalificação profissional e até de reciclagem total, Gleiser não exime a responsabilidade das próprias empresas e defende que o século 21 exige uma nova ética corporativa.

“Quando o Google desenvolve carros autônomos, eles não estão só desenvolvendo carros. Há milhões de caminhoneiros e motoristas de ônibus com potencial de ficarem desempregados. Como a ética corporativa lida com isso?”.

O cientista diz não ter uma resposta para essa “obrigação moral”, mas defende que a discussão é importante e precisa ocorrer dentro das organizações por dois aspectos. Um deles envolve a sua percepção de que a requalificação profissional exigida para o futuro próximo é bem diferente daquela que precisou ocorrer nos tempos de Henry Ford e da Revolução Industrial.

“O nível de preparo para uma pessoa trabalhar em uma fábrica em produção em série é muito menor do demandado para tocar uma tecnologia de ponta”.

Outro motivo, que é o que faz Gleiser ser otimista com essa questão, está diretamente relacionado aos consumidores do século 21. Para o cientista, as empresas precisarão se posicionar diferentemente sobre as questões morais e éticas por pressão dos próprios clientes.

“Sei que sou um cientista falando sobre liderança, mas penso que os líderes precisam trocar de perspectiva. Aquela ideia de que o consumidor é alvo — e não parceiro — precisa mudar. Se o produto deixa de vender porque os consumidores estão desencantados com as posições da empresa, ela precisará mudar”. Em sua visão, o líder que só olha para “produto e venda”, e não para o “papel cívico e social” da organização irá falhar.

Gleiser diz que a reflexão parece utópica, mas cita que já há um esforço de grandes companhias, tradicionais e fortes, em se transformar. “Se você entrar no site da Shell e da Chevron, vê o esforço das duas em mudar como se descrevem. Dizem que não são apenas exploradoras de petróleo, mas empresas preocupadas com o futuro, meio ambiente e com a divisão de renda. Você não ouvia isso há vinte anos”.

Por trás desse esforço e da própria pressão dos consumidores, defende Gleiser, está a maior presença da geração Z (nascidos a partir de 1995), capaz de reinventar a forma como trabalhamos, vivemos e consumimos.

“É a primeira geração totalmente digital e que possui valores sociais profundamente diferentes. São pessoas que veem, por exemplo, a diversidade de uma forma óbvia, absolutamente natural e essencial na sociedade”, afirma.

Para ele, as empresas à frente atualmente estão alinhadas a esse novo perfil, valores e demandas sociais e ambientais. “Já fazem negócio e pensam o ambiente de trabalho de uma forma totalmente diferente”. (do Valor Econômico)